Pastoral (Domingo, 28 de outubro de 2007) Urbana Selva Já vai longe o tempo em que a cidade ("urbis", em latim) era sinônimo de respeito e amabilidade. Tanto era, que urbis deu origem à palavra urbanidade. Segundo o Aurélio, urbanidade significa "civilidade, cortesia, afabilidade". Uma pessoa urbana, diz o dicionarista, é alguém "cortês, afável, civilizado". Parece, entretanto, que esse vínculo que havia entre cidade e cortesia espatifou-se no asfalto selvagem da agitação urbana. Os anciãos, por exemplo, não têm recebido o respeito dos mais novos. Basta prestar atenção à reação de um motorista de ônibus quando o vovô ou a vovó acenam. Já combinei com minha esposa que, quanto depender de nós, não queremos uma velhice assim pra nós. Já que possui o maior contingente de anciãos do País, esta cidade deveria ser menos incivilizada com eles. Cito os anciãos como poderia citar os menores nas ruas, também desrespeitados (pelos pais que os jogaram lá, pelos que passam, pelos que os agridem, etc). A qualidade da vida social se vai deteriorando a olhos vistos. A cidade esqueceu a civilidade. Expressões como "com licença", "me desculpe", "muito obrigado", "por gentileza" parecem condenadas à extinção. Poderão, mais dia menos dia, desaparecer da língua que falamos simplesmente por desuso. Não demora muito, elas serão apenas um verbete a mais nos dicionários, como se fossem dinossauros lingüísticos. Como cidadãos, não podemos fechar os olhos para os muitos problemas da nossa cidade. Tentar solucioná-los é um dever de cidadania. É também um dever de cada crente ser polido. Paulo recomendou a Tito: "Não difamem a ninguém; nem sejam litigiosos, mas cordatos, dando provas de toda cortesia, para com todos os homens" (Tt 3.2). Lutemos pela redescoberta da paciência, da gentileza e do respeito. Sem isso, a cidade vira selva de novo. Bem que a gente poderia ensinar a cidade a fazer isso, praticando tais virtudes já na igreja, que tal?
Pastor João Soares da Fonseca
|
|