Algumas Lembranças e uma Esperança: breves palavras sobre a Páscoa
Sempre gostei da Páscoa. A época em que ela é comemorada coincide com o fim do verão, que se despede nos deixando nada além do frescor e da melancolia saborosa do outono. É uma época favorável às lembranças. Lembro-me de minha infância, não tão distante assim, quando minhas bochechas ruborizadas pelo frio matinal da cidade de São Paulo movimentavam-se sincronicamente pelo mastigar de grandes blocos de chocolate ao leite.
No domingo de Páscoa, era comum as crianças da minha vizinhança saírem de suas casas carregando embalagens amassadas de seus ovos de chocolate devorados impiedosamente. Os mais prudentes, ou menos esfomeados, gabavam-se porque poderiam se deleitar no doce de cacau por mais alguns dias. Era uma grande festa: os que ganhavam chocolates de menor qualidade não hesitavam em trocar pedaços de seus ovos com os colegas mais afortunados, que algumas vezes se mostravam solidários, outras vezes não. Mas ninguém duvidava que aquela apoteose de papéis laminados, reluzentes e barulhentos, com seu conteúdo precioso, produzia um alvoroço divertido e uma integração entre a garotada que só se vê igual no Natal.
Definitivamente, a Páscoa sugere boas lembranças. Mas o que pouca gente sabe é que a Páscoa é uma festa de lembranças - de duas lembranças, para ser mais preciso. A primeira delas refere-se à libertação dos hebreus do jugo egípcio (o chamado Êxodo), quando aproximadamente treze séculos antes de Cristo Moisés conduziu aquele povo rumo à Terra Prometida, deixando para trás o país dos faraós. Foi neste evento que Deus realizou o grande milagre da abertura do Mar Vermelho. Até os dias de hoje os judeus comemoram a Páscoa para rememorar esta história belíssima. A segunda lembrança associada à Páscoa é a ressurreição de Jesus, comemorada nesta época por milhões de cristãos espalhados pelo mundo.
Enquanto para os judeus a Páscoa representa o fim da escravidão no Egito, para os cristãos ela simboliza o fim da escravidão do pecado. Nós cristãos acreditamos que a morte e a ressurreição de Jesus Cristo fazem parte de um plano perfeito, elaborado por Deus para que toda a pessoa que crê no Seu filho, que é o próprio Jesus, tenha seus pecados perdoados e seja livre da condenação espiritual. A Páscoa é, portanto, uma festa de lembranças e é, também, a comemoração de uma grande esperança. Da esperança de que existe um Deus que faz questão de libertar aqueles que o reconhecem como Senhor (João 8:36). Da esperança de que as aflições dessa vida não se comparam ao que Deus tem reservado para nós na eternidade (Romanos 8:18). Da esperança de que coisa alguma, nem mesmo a morte, pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo (Romanos 8: 38-39).
Vem aí mais uma Páscoa e, naturalmente, as crianças, as famílias, as escolas e o comércio estão mobilizados para fazer desta a maior e melhor de todas as páscoas. E que, de fato, esta seja a melhor de todas elas, trazendo à nossa memória o cheiro de chocolate ao leite e as visões de uma manhã de domingo outonal. Mas que, além das belas lembranças, esta Páscoa nos ensine a festejar a maior de todas as esperanças: em Cristo há nova vida e salvação eterna.
A Ele, Jesus Cristo, que está vivo e reina para sempre, seja dedicada a nossa Páscoa.Pr. Elio Portella Junior